sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Respostas à proposta de criação da ACBr

Dois dos maiores comportamentalistas do nosso país se posicionaram com relação à possível criação da Associação Brasileira de Análise do Comportamento (que eu postei aqui): Hélio J. Guilhardi e Roberto A. Banaco. Seguem abaixo as cartas de ambos:

Carta de Hélio Guilhardi (ITCR)

ACBr:
Prezados colegas,
Recebi o texto sobre a proposta de criar uma ACBr.
Tenho ficado preocupado essencialmente com o que vem ocorrendo com o ensino da Análise do Comportamento nos cursos de Psicologia do Brasil. Nossos alunos de graduação estão progressivamente mais privados de acesso ao que pessoalmente considero como o que há de melhor na Psicologia contemporânea. Este tema tem tirado meu sossego. O que poderia ser feito para reintroduzir, de forma séria, sistemática e continuada, o ensino da Ciência do Comportamento, do Behaviorismo Radical, de atitudes de ciência e pesquisa, bem como as múltiplas aplicações da Análise do Comportamento em benefício da população a quem, nós psicólogos, oferecemos serviços em clínica, em educação, em organizações, em agências sociais etc.
Honestamente, criar uma nova Associação não é uma alternativa oportuna. Concordo com as posições do João Cláudio Todorov e do Roberto Banaco (foram as que me chegaram às mãos), que não veem nessa iniciativa solução para a evolução da Análise do Comportamento e das múltiplas alternativas de ação aplicada no contexto brasileiro.
Defendo fortalecer a ABPMC como entidade representativa do grupo de analistas comportamentais de todos os matizes – o que a consolida como uma notável instituição democrática e aberta à exposição de variabilidade comportamental. Repito o que já é sabido por todos: a ABPMC pode acolher, como vem fazendo, eventos de todos os analistas de comportamento. Se representar um avanço (alternativa a ser melhor avaliada), a Diretoria da ABPMC pode estudar a formalização de diferentes grupos de trabalho, de organizações de eventos próprios dentro do âmbito da ABPMC.
A existência de grupos com diferentes nuances conceituais e de práticas de atuação distintas, a ocorrência de eventos científicos, tais como Jornadas, Cursos, Encontros etc. – pode-se, inclusive, destacar com orgulho a quantidade de Jornadas de Análise de Comportamento quem vêm se multiplicando pelo Brasil – não tem que significar, necessariamente, divisão de esforços, desde que seja mantida uma organização aglutinadora. A ABPMC pode – e tem sido assim – manter a unidade, respeitando a variabilidade e, desta forma, permanecer como tal entidade aglutinadora.
Prefiro acreditar que a ideia de se criar uma nova Associação – e quem tomou esta iniciativa, o fez com cautela, consultando a comunidade – tem por objetivo criar um instrumento de fortalecimento, não de divisão. Não obstante ter esta interpretação, mantenho minha posição de que não é uma iniciativa oportuna e pode ser mais prejudicial que construtiva.
Abraços, Hélio.

Carta de Roberto Banaco (Núcleo Paradigma)

Prezados...

(1) "Até a presente data, não temos uma representação social própria."

Discordo, porque há 22 anos temos nos abrigado na ABPMC, que tem nos representado junto a várias comunidades, desde a SBP, a SBPC e a própria ABA. Já aconteceram tentativas anteriores de que tivéssemos uma representação própria, por exemplo, fundando, aqui no Brasil, um capítulo da ABA (achei na época, e continuo achando, um movimento duvidoso já que se argumentava uma representação própria, como um capítulo de uma instituição americana. Mesmo assim, gostaria de lembrá-los que a própria ABPMC foi bastante e suficiente para abrigar a ABAi do ano de 2004, em Campinas).

(2) "Este estado das coisas não foi, todavia, empecilho para que experimentássemos um extraordinário crescimento nas últimas décadas. Extraordinário não porque nosso número seja grande hoje, mas porque partimos de um número muito pequeno, exatamente daqueles poucos brilhantes e dedicados estudantes que, na década de 70, buscaram fora do nosso país sua primeira formação na Análise do Comportamento e no Behaviorismo Radical e que trouxeram para o nosso país o saudoso Prof. Fred Keller, formando então o berço da nossa ciência no Brasil."

Resposta: Concordo em gênero, número e grau. Inclusive o fato de não sermos ainda um numero muito grande, embora sejamos há algum tempo a maior comunidade de analistas do comportamento fora dos EUA (Morris, E. K.; Baer, D. M.; Favell, J. E.; Glenn, S. S.; Hineline, P. N.; Mallot, M. E.; Michael, J. (2001) Some reflections on 25 years of Association for Behavior Analysis: past, present and future. The Behavior Analyst, 24, 125-146.)

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(3) "Sabemos que hoje nós, os interessados na Ciência do Comportamento, somos bem mais do que aqueles poucos pioneiros, mas o fato é que não sabemos ao certo quantos somos, não conhecemos ao certo nosso peso, não conhecemos ao certo nosso potencial e, assim, não conhecemos também a quais contingências deveríamos atentar, responder ou dispor para que possamos avançar na construção de um sólida representação analítico-comportamental no nosso país. Noutras palavras, ainda não conseguimos nos organizar e nos agregar para promovermos com especificidade o avanço da nossa ciência."

Resposta: Concordo também com isto, até porque não sabemos sequer definir (para podermos depois contar e em seguida podermos contar com eles) o que é um analista do comportamento e esta talvez seja a origem da preocupação de vocês, já debatida também na reunião em território neutro. Mesmo que desenvolvamos critérios para estabelecermos a definição, saímos com a impressão de que os critérios para esse senso e essa classificação se mostraria sensível a críticas, como qualquer uma que venha a surgir. Não acredito, no entanto, que devamos nos furtar a fazê-la. Só não acho que a fundação de uma nova associação contornará o problema.

(4) "Nos últimos 22 anos temos nos abrigado na ABPMC, Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental, uma associação de vocação eclética, como indica a sua própria denominação e estatuto. Vinte e dois anos é um tempo considerável. Neste período, assistimos colegas interessados noutros modelos, noutros quadros referenciais, desejarem formar suas próprias associações, na busca de condições mais específicas e mais propícias para o seu desenvolvimento. Tal foi o caso, por exemplo, dos colegas cognitivistas, que fundaram a SBTC. Boa parte de nós viu com aprovação este movimento, entendendo como justa a sua busca de uma identidade inequívoca e de uma representação própria, no momento em que tiveram o número suficiente de interessados para isso."

Resposta: Isto também FOI verdade... mas desde a reunião fatídica de 2004, na qual assisti aterrorizado a declaração, em cerimônia de encerramento da reunião, que estávamos finalmente expurgando os cognitivistas da ABPMC (com o requinte cruel de ter Bernard Rangé na mesa de cerimônia), isto deixou de representar a realidade. Eles, os cognitivistas não desejaram fundar suas associações... eles foram convidados por declarações desse tipo a se retirarem. Gradativamente, como vocês apontaram, os cognitivistas foram saindo da associação (um duro golpe para a instituição em si, que, exatamente por sermos poucos, lutava para agregar o maior numero de profissionais que pudessem partilhar de alguma crença). Sobrou a “grande massa” de analistas do comportamento, e algum ou outro cognitivista desavisado de que ele não era mais bem vindo entre nós.

Ainda quanto ao ecletismo, lembro-me da fundação da ABPMC, em época na qual a ABAC, (que já havia substituído a AMC por força e recomendação da Profa. Carolina que exigia o “Brasileira” no título de nossa congregação) havia sido extinta por condições que estamos re-vivendo: ninguém, que tenha força ou representatividade política, ou conhecimento do funcionamento da instituição quis tocá-la para a frente, ficando a diretoria da época (da qual eu fiz parte), com uma associação ingovernável. Acabou “no ar”...

Foi então que Bernard Rangé reuniu-se com Hélio e Ricardo Gorayeb e fundaram a ABPMC: com a palavra “psico-terapia” para satisfazer a Rangé, sem a palavra “cognitivo” para acalmar o Hélio e com a “Medicina” para contemplar Ricardo, aliás palavra que vem nos assombrando há anos, por conta inclusive de Atos Médicos... Esta foi a origem do ecletismo...

Uma associação de terapeutas comportamentais (como nos chamávamos na época) foi então fundada, e or 22 anos... é um tempo considerável para sentirmos falta agora de uma associação que “nos represente”, como se a ABPMC não tivesse feito isso este tempo todo...

(5) "Alguns de nós acreditamos que este momento também tenha chegado para nós. Temos agora o número suficiente (qual é o número mesmo? Achei que não sabíamos ali em cima) e mais do que isso: acreditamos que precisamos, com rapidez, aproximar ainda mais os colegas da clínica analítico-comportamental, da pesquisa básica e aplicada e demais aplicações analítico-comportamentais no bojo de uma associação integralmente voltada para o estudo, promoção e disseminação da nossa matriz cultural. Pensamos também que , nas diversas instâncias e situações de interesse específico e especializado da nossa ciência, não nos ajuda adiar a constituição de uma representação social e que possa falar por todos nós com a legitimidade que decorre da asserção pública e clara das nossas singularidades enquanto comunidade verbal científica naturalística."

Resposta: Sob a regência do Hélio, passaram a conviver na ABPMC os terapeutas analítico-comportamentais, os pesquisadores básicos e aplicados, órfãos de uma associação que lhes abrigasse desde a extinção da ABAC. A ABPMC deu-lhes o fórum e a importância devida, promovendo não só a participação conjunta em seus Encontros Anuais (a maior parte das vezes como convidados especiais), mas também oferecendo-lhes meio de comunicação enquanto comunidade verbal por meio das suas Coleções (Comportamento e Cognição, e sua substituta, o Comportamento em foco), bem como a Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva (lançada ainda antes de 2004, por essa razão ainda mantém o “cognitiva” no seu título), e as outras publicações paralelas pela Arbytes. Mais do que isto, na última diretoria, encabeçada pela prÍ pria Martha, alteramos o nome da ABPMC para Associação Brasileira de PSICOLOGIA e Medicina Comportamental, exatamente por avaliarmos que esse convívio já estava estabelecido.



(6) Estamos, assim, lançando o convite para a fundação da Associação Brasileira de Análise do Comportamento, ACBr, e convidando o/a colega vir caminhar conosco. Criamos um grupo no Yahoogroups (http://tech.groups.yahoo.com/group/acbr_aba) com a finalidade única de registrar sua pré-adesão. Evidentemente, a pré-adesão em nada obriga àquele/a que a fizer. Somente confirma o seu interesse preliminar e nos autoriza, oportunamente, enviarmos uma comunicação convidando você a se informar melhor e formalizar a sua adesão, caso ainda seja do seu interesse.

Resposta: O que quer dizer esse underline aba???? ACBr já não bastava? Ou estamos revivendo a capitulização da Análise do Comportamento Brasil junto à ABAi?


(7) "Como registrar o seu interesse: simplesmente envie um e-mail em branco endereçado para:acbr_aba-subscribe@yahoogroups.com ou siga este link (por favor, observe o “underline”: acbr_aba...etc.). A seguir, o Yahoogroups lhe enviará um e-mail solicitando que confirme a sua inscrição. Para fazer isso, simplesmente clique em “responder” e envie. Pronto! Você receberá um e-mail avisando-o/a do seu registro e já será um membro (ou, neste caso, já terá expressado seu interesse). Por favor, verifique seu lixo eletrônico. O e-mail pedindo confirmação pode ter ido para lá. Siga o link e junte as suas forças às da sua comunidade verbal. Esperamos e desejamos ter você junto conosco."

Resposta: Por que não juntarmos as forças de vocês às da comunidade verbal que já nos agrega há 22 anos?

(8) "Uma nota importante: como ficaria nossa relação com a ABPMC? Uma resposta definitiva a esta questão só poderá ser dada, por um lado, pelo corpo da ACBr ainda a ser constituído e, por outro, pela própria ABPMC."

Resposta: Até onde estou ciente, a ABPMC ainda não sabe sobre esta proposta! (ou não sabia quando a proposta foi encaminhada e amplamente divulgada)

(9) "Da maneira como vemos, pertencer a uma associação não exclui pertencer a qualquer outra que se deseje. As especificidades se referem às práticas verbais e à ação profissional e não às pessoas; poliglotas existem e coexistem. O que preliminarmente desejaríamos seria uma associação irmã da ABPMC, que poderia perfeitamente, pensamos, realizar seu encontro anual no mesmo tempo e local da ABPMC, embora com programa paralelo. As demais ações da ACBr, no sentido de avançar para uma profissionalização própria e de assegurar sua representatividade social plena provavelmente seguirão caminhos próprios."

Por favor, convençam-me que isto não tem a ver com a futura certificação que discutimos longamente em território neutro, na casa da Maly e que havíamos acordado entre nós que seria da alçada da ABPMC, em comissão a ser constituída... Terei perdido o bonde?
Vocês sabem o quanto eu os respeito... Por isso queria que soubessem por que, em princípio, sou contrário às conduções propostas... Obviamente se for o desejo da comunidade como um todo, estaremos matando mais uma associação que tem sobrevivido a duras penas e pelo esforço nos últimos anos de pessoas tanto bem intencionadas quanto trabalhadoras pelo bem comum da nossa ciência, que vejo a criação de uma associação desse tipo não como uma associação irmã, mas como uma forte concorrente. Talvez vocês não saibam, mas sempre é bom informar para que vocês tenham a ideia de como nossa comunidade funciona: dos 700 inscritos no próximo Encontro da ABPMC que ocorrerá em Fortaleza, há apenas um inscrito da cidade de Campinas. Eu gostaria de não acreditar nisso, mas não posso deixar de imputar o fato ao congresso que Hélio e Patrícia têm promovido nessa cidade, no primeiro semestre, com a participação de pelo menos 600 pessoas da região! Temo que estejamos, de fato, reproduzindo um fato já conhecido em nossa história... Dividir... novamente... e mais vez, não para governar...

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