Dois dos maiores comportamentalistas do nosso país se posicionaram com relação à possível criação da Associação Brasileira de Análise do Comportamento (que eu postei aqui): Hélio J. Guilhardi e Roberto A. Banaco. Seguem abaixo as cartas de ambos:
Carta de Hélio Guilhardi (ITCR)
ACBr:
Prezados colegas,
Recebi o texto sobre a proposta de criar uma ACBr.
Tenho ficado preocupado essencialmente com o que
vem ocorrendo com o ensino da Análise do Comportamento nos cursos de Psicologia
do Brasil. Nossos alunos de graduação estão progressivamente mais privados de
acesso ao que pessoalmente considero como o que há de melhor na Psicologia
contemporânea. Este tema tem tirado meu sossego. O que poderia ser feito para
reintroduzir, de forma séria, sistemática e continuada, o ensino da Ciência do
Comportamento, do Behaviorismo Radical, de atitudes de ciência e pesquisa, bem
como as múltiplas aplicações da Análise do Comportamento em benefício da
população a quem, nós psicólogos, oferecemos serviços em clínica, em educação,
em organizações, em agências sociais etc.
Honestamente, criar uma nova Associação não é uma
alternativa oportuna. Concordo com as posições
do João Cláudio Todorov e do Roberto Banaco (foram as que me chegaram às mãos),
que não veem nessa iniciativa solução para a evolução da Análise do
Comportamento e das múltiplas alternativas de ação aplicada no contexto
brasileiro.
Defendo fortalecer a ABPMC como entidade
representativa do grupo de analistas comportamentais de todos os matizes – o
que a consolida como uma notável instituição democrática e aberta à exposição
de variabilidade comportamental. Repito o que já é sabido por todos: a ABPMC
pode acolher, como vem fazendo, eventos de todos os analistas de comportamento.
Se representar um avanço (alternativa a ser melhor avaliada), a Diretoria da
ABPMC pode estudar a formalização de diferentes grupos de trabalho, de
organizações de eventos próprios dentro do âmbito da ABPMC.
A existência de grupos com diferentes nuances
conceituais e de práticas de atuação distintas, a ocorrência de eventos
científicos, tais como Jornadas, Cursos, Encontros etc. – pode-se, inclusive,
destacar com orgulho a quantidade de Jornadas de Análise de Comportamento quem
vêm se multiplicando pelo Brasil – não tem que significar, necessariamente,
divisão de esforços, desde que seja mantida uma organização aglutinadora. A
ABPMC pode – e tem sido assim – manter a unidade, respeitando a variabilidade
e, desta forma, permanecer como tal entidade aglutinadora.
Prefiro acreditar que a ideia de se criar uma nova
Associação – e quem tomou esta iniciativa, o fez com cautela, consultando a
comunidade – tem por objetivo criar um instrumento de fortalecimento, não de
divisão. Não obstante ter esta interpretação, mantenho minha posição de que não
é uma iniciativa oportuna e pode ser mais prejudicial que construtiva.
Abraços, Hélio.
Carta de Roberto Banaco (Núcleo Paradigma)
Prezados...
(1) "Até a presente data, não temos uma
representação social própria."
Discordo, porque há 22 anos temos nos abrigado na
ABPMC, que tem nos representado junto a várias comunidades, desde a SBP, a SBPC
e a própria ABA. Já aconteceram tentativas anteriores de que tivéssemos uma
representação própria, por exemplo, fundando, aqui no Brasil, um capítulo da
ABA (achei na época, e continuo achando, um movimento duvidoso já que se
argumentava uma representação própria, como um capítulo de uma instituição
americana. Mesmo assim, gostaria de lembrá-los que a própria ABPMC foi bastante
e suficiente para abrigar a ABAi do ano de 2004, em Campinas).
(2) "Este estado das coisas não foi, todavia,
empecilho para que experimentássemos um extraordinário crescimento nas últimas
décadas. Extraordinário não porque nosso número seja grande hoje, mas porque
partimos de um número muito pequeno, exatamente daqueles poucos brilhantes e
dedicados estudantes que, na década de 70, buscaram fora do nosso país sua
primeira formação na Análise do Comportamento e no Behaviorismo Radical e que
trouxeram para o nosso país o saudoso Prof. Fred Keller, formando então o berço
da nossa ciência no Brasil."
Resposta: Concordo em gênero, número e grau.
Inclusive o fato de não sermos ainda um numero muito grande, embora sejamos há
algum tempo a maior comunidade de analistas do comportamento fora dos EUA
(Morris, E. K.; Baer, D. M.; Favell, J. E.; Glenn, S. S.; Hineline, P. N.;
Mallot, M. E.; Michael, J. (2001) Some reflections on 25 years of Association
for Behavior Analysis: past, present and future. The Behavior Analyst, 24,
125-146.)
.
(3) "Sabemos que hoje nós, os interessados na
Ciência do Comportamento, somos bem mais do que aqueles poucos pioneiros, mas o
fato é que não sabemos ao certo quantos somos, não conhecemos ao certo nosso
peso, não conhecemos ao certo nosso potencial e, assim, não conhecemos também a
quais contingências deveríamos atentar, responder ou dispor para que possamos
avançar na construção de um sólida representação analítico-comportamental no
nosso país. Noutras palavras, ainda não conseguimos nos organizar e nos agregar
para promovermos com especificidade o avanço da nossa ciência."
Resposta: Concordo também com isto, até porque não
sabemos sequer definir (para podermos depois contar e em seguida podermos
contar com eles) o que é um analista do comportamento e esta talvez seja a
origem da preocupação de vocês, já debatida também na reunião em território
neutro. Mesmo que desenvolvamos critérios para estabelecermos a definição,
saímos com a impressão de que os critérios para esse senso e essa classificação
se mostraria sensível a críticas, como qualquer uma que venha a surgir. Não
acredito, no entanto, que devamos nos furtar a fazê-la. Só não acho que a
fundação de uma nova associação contornará o problema.
(4) "Nos últimos 22 anos temos nos abrigado na
ABPMC, Associação Brasileira de Psicologia e Medicina Comportamental, uma
associação de vocação eclética, como indica a sua própria denominação e
estatuto. Vinte e dois anos é um tempo considerável. Neste período, assistimos
colegas interessados noutros modelos, noutros quadros referenciais, desejarem
formar suas próprias associações, na busca de condições mais específicas e mais
propícias para o seu desenvolvimento. Tal foi o caso, por exemplo, dos colegas
cognitivistas, que fundaram a SBTC. Boa parte de nós viu com aprovação este
movimento, entendendo como justa a sua busca de uma identidade inequívoca e de
uma representação própria, no momento em que tiveram o número suficiente de
interessados para isso."
Resposta: Isto também FOI verdade... mas desde a
reunião fatídica de 2004, na qual assisti aterrorizado a declaração, em
cerimônia de encerramento da reunião, que estávamos finalmente expurgando os
cognitivistas da ABPMC (com o requinte cruel de ter Bernard Rangé na mesa de
cerimônia), isto deixou de representar a realidade. Eles, os cognitivistas não
desejaram fundar suas associações... eles foram convidados por declarações
desse tipo a se retirarem. Gradativamente, como vocês apontaram, os
cognitivistas foram saindo da associação (um duro golpe para a instituição em
si, que, exatamente por sermos poucos, lutava para agregar o maior numero de
profissionais que pudessem partilhar de alguma crença). Sobrou a “grande massa”
de analistas do comportamento, e algum ou outro cognitivista desavisado de que
ele não era mais bem vindo entre nós.
Ainda quanto ao ecletismo, lembro-me da fundação da
ABPMC, em época na qual a ABAC, (que já havia substituído a AMC por força e
recomendação da Profa. Carolina que exigia o “Brasileira” no título de nossa
congregação) havia sido extinta por condições que estamos re-vivendo: ninguém,
que tenha força ou representatividade política, ou conhecimento do
funcionamento da instituição quis tocá-la para a frente, ficando a diretoria da
época (da qual eu fiz parte), com uma associação ingovernável. Acabou “no
ar”...
Foi então que Bernard Rangé reuniu-se com Hélio e
Ricardo Gorayeb e fundaram a ABPMC: com a palavra “psico-terapia” para
satisfazer a Rangé, sem a palavra “cognitivo” para acalmar o Hélio e com a
“Medicina” para contemplar Ricardo, aliás palavra que vem nos assombrando há
anos, por conta inclusive de Atos Médicos... Esta foi a origem do ecletismo...
Uma associação de terapeutas comportamentais (como
nos chamávamos na época) foi então fundada, e or 22 anos... é um tempo
considerável para sentirmos falta agora de uma associação que “nos represente”,
como se a ABPMC não tivesse feito isso este tempo todo...
(5) "Alguns de nós acreditamos que este
momento também tenha chegado para nós. Temos agora o número suficiente (qual é
o número mesmo? Achei que não sabíamos ali em cima) e mais do que isso:
acreditamos que precisamos, com rapidez, aproximar ainda mais os colegas da
clínica analítico-comportamental, da pesquisa básica e aplicada e demais
aplicações analítico-comportamentais no bojo de uma associação integralmente
voltada para o estudo, promoção e disseminação da nossa matriz cultural.
Pensamos também que , nas diversas instâncias e situações de interesse
específico e especializado da nossa ciência, não nos ajuda adiar a constituição
de uma representação social e que possa falar por todos nós com a legitimidade
que decorre da asserção pública e clara das nossas singularidades enquanto
comunidade verbal científica naturalística."
Resposta: Sob a regência do Hélio, passaram a
conviver na ABPMC os terapeutas analítico-comportamentais, os pesquisadores
básicos e aplicados, órfãos de uma associação que lhes abrigasse desde a
extinção da ABAC. A ABPMC deu-lhes o fórum e a importância devida, promovendo
não só a participação conjunta em seus Encontros Anuais (a maior parte das
vezes como convidados especiais), mas também oferecendo-lhes meio de
comunicação enquanto comunidade verbal por meio das suas Coleções
(Comportamento e Cognição, e sua substituta, o Comportamento em foco), bem como
a Revista Brasileira de Terapia Comportamental e Cognitiva (lançada ainda antes
de 2004, por essa razão ainda mantém o “cognitiva” no seu título), e as outras
publicações paralelas pela Arbytes. Mais do que isto, na última diretoria,
encabeçada pela prÍ pria Martha, alteramos o nome da ABPMC para Associação
Brasileira de PSICOLOGIA e Medicina Comportamental, exatamente por avaliarmos
que esse convívio já estava estabelecido.
(6) Estamos, assim, lançando o convite para a
fundação da Associação Brasileira de Análise do Comportamento, ACBr, e
convidando o/a colega vir caminhar conosco. Criamos um grupo no Yahoogroups (http://tech.groups.yahoo.com/group/acbr_aba)
com a finalidade única de registrar sua pré-adesão. Evidentemente, a pré-adesão
em nada obriga àquele/a que a fizer. Somente confirma o seu interesse
preliminar e nos autoriza, oportunamente, enviarmos uma comunicação convidando
você a se informar melhor e formalizar a sua adesão, caso ainda seja do seu
interesse.
Resposta: O que quer dizer esse underline aba????
ACBr já não bastava? Ou estamos revivendo a capitulização da Análise do
Comportamento Brasil junto à ABAi?
(7) "Como registrar o seu interesse:
simplesmente envie um e-mail em branco endereçado para:acbr_aba-subscribe@yahoogroups.com
ou siga este link (por favor, observe o “underline”: acbr_aba...etc.). A
seguir, o Yahoogroups lhe enviará um e-mail solicitando que confirme a sua
inscrição. Para fazer isso, simplesmente clique em “responder” e envie. Pronto!
Você receberá um e-mail avisando-o/a do seu registro e já será um membro (ou,
neste caso, já terá expressado seu interesse). Por favor, verifique seu lixo
eletrônico. O e-mail pedindo confirmação pode ter ido para lá. Siga o link e
junte as suas forças às da sua comunidade verbal. Esperamos e desejamos ter
você junto conosco."
Resposta: Por que não juntarmos as forças de vocês
às da comunidade verbal que já nos agrega há 22 anos?
(8) "Uma nota importante: como ficaria nossa
relação com a ABPMC? Uma resposta definitiva a esta questão só poderá ser dada,
por um lado, pelo corpo da ACBr ainda a ser constituído e, por outro, pela
própria ABPMC."
Resposta: Até onde estou ciente, a ABPMC ainda não
sabe sobre esta proposta! (ou não sabia quando a proposta foi encaminhada e
amplamente divulgada)
(9) "Da maneira como vemos, pertencer a uma
associação não exclui pertencer a qualquer outra que se deseje. As
especificidades se referem às práticas verbais e à ação profissional e não às
pessoas; poliglotas existem e coexistem. O que preliminarmente desejaríamos
seria uma associação irmã da ABPMC, que poderia perfeitamente, pensamos,
realizar seu encontro anual no mesmo tempo e local da ABPMC, embora com
programa paralelo. As demais ações da ACBr, no sentido de avançar para uma
profissionalização própria e de assegurar sua representatividade social plena
provavelmente seguirão caminhos próprios."
Por favor, convençam-me que isto não tem a ver com
a futura certificação que discutimos longamente em território neutro, na casa
da Maly e que havíamos acordado entre nós que seria da alçada da ABPMC, em
comissão a ser constituída... Terei perdido o bonde?
Vocês sabem o quanto eu os respeito... Por isso
queria que soubessem por que, em princípio, sou contrário às conduções
propostas... Obviamente se for o desejo da comunidade como um todo, estaremos
matando mais uma associação que tem sobrevivido a duras penas e pelo esforço
nos últimos anos de pessoas tanto bem intencionadas quanto trabalhadoras pelo
bem comum da nossa ciência, que vejo a criação de uma associação desse tipo não
como uma associação irmã, mas como uma forte concorrente. Talvez vocês não
saibam, mas sempre é bom informar para que vocês tenham a ideia de como nossa
comunidade funciona: dos 700 inscritos no próximo Encontro da ABPMC que
ocorrerá em Fortaleza, há apenas um inscrito da cidade de Campinas. Eu gostaria
de não acreditar nisso, mas não posso deixar de imputar o fato ao congresso que
Hélio e Patrícia têm promovido nessa cidade, no primeiro semestre, com a
participação de pelo menos 600 pessoas da região! Temo que estejamos, de fato,
reproduzindo um fato já conhecido em nossa história... Dividir... novamente...
e mais vez, não para governar...